Caixa Preta apresenta: "A Troca"

A Troca (The Changeling/80) Direção: Peter Medak. Com: George C. Scott (John Russel), Melvyn Douglas (Senador Joseph Carmichael), Trish Van Devere (Claire Norman), etc
Não é fácil de encontrar, mas garimpando nas videolocadoras mais bacanas ainda dá para achar a versão em VHS desse pouco falado terror canadense. E vale a pena. "A Troca" é um exemplo raro de horror que traz uma subtrama realmente interessante. Rodado em 1980, mesmo ano em que Kubrick congelou o sangue de muita gente com sua versão de "O Iluminado", o filme do húngaro Peter Medak tem, além do ótimo roteiro, dois outros fatores que o colocam na prateleira de clássicos do gênero: cenas apavorantes (não-gratuitas) e um elenco de primeira. O elenco, na verdade, está ancorado na figura de dois grandes atores: George C. Scott ("Dr. Fantástico") e Melvyn Douglas ("Ninotchka"). A presença desses dois vencedores do Oscar dá ao filme uma qualidade de atuação que raramente se observa em filmes de horror.
A trama resume-se à mudança do compositor John Russel (George C. Scott) para um casarão em Seattle após a morte de sua esposa e filha num acidente rodoviário. Na mansão, ele começa a ser assombrado pelo sobrenatural e com a ajuda de uma amiga (Trish Van Devere, esposa de Scott na vida real), faz de tudo para desvendar o que há por trás das manifestações metafísicas. O diretor Peter Medak teve calma em apresentar os personagens, investiu tempo e negativo filmando cenas que outros cineastas teriam deixado de lado e tudo isso contribui para dar veracidade àquilo que, na maioria dos filmes, tomamos como fantasia. Parece apropriado comparar a busca incançável de John Russel em "A Troca", ao drama de uma mãe que tenta resolver o misterioso problema da filha em "O Exorcista". Ambos os filmes têm em comum a sutileza com que o sobrenatural é apresentado na história e essa é uma das razões que os faz, a seu modo, tão apavorantes.
"A Troca" tem, se tanto, cinco cenas assustadoras, mas que já valem o preço da locação para qualquer fã de terror. Os demais, que não são assim vidrados em histórias do além, também podem, e devem, alugar a fita por suas pouco reconhecidas qualidades cinematográficas. A narrativa e a maneira de filmar são da escola clássica, as atuações de Scott e Douglas são estupendas e o roteiro é tão bem amarrado que mesmo o espectador mais ranzinza terá problemas em encontrar a menor incoerência (e isso é "mato" em outros filmes de horror).
Em tempo: "A Troca", que saiu em DVD nos States sem extras e com legendas em inglês e espanhol, pode ganhar um remake em breve. Se for tão estúpido quanto o de "A Casa Amaldiçoada", é caso para boicotar qualquer refilmagem do gênero que venha depois.

CURIOSIDADES:
* "A Troca" foi satirizado no filme "Todo Mundo em Pânico 2" e serviu de inspiração para uma longa seqüência da versão americana de "Ringu" ("O Chamado");
* Melvyn Douglas, que ganhou o Oscar de ator coadjuvante em 1966 pelo filme "O Indomado", repetiu a façanha, já velhinho, faturando outra estatueta pelo ótimo "Muito Além do Jardim", de 1979. Um ano mais tarde ele trabalharia em "A Troca" e morreria no seguinte, aos 80 anos;
* George C. Scott havia sido indicado 2 vezes ao Oscar de ator coadjuvante antes de ganhar, em 1970, o prêmio de melhor ator por "Patton, Rebelde ou Herói?". Detalhe: Scott não apareceu para buscar o prêmio e, mesmo assim, foi indicado no ano seguinte pelo filme "Hospital".
Escrito por Mr Eddy às 04h22
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